Quando adiar não é falta de vontade, mas uma tentativa de evitar algo que parece ameaçador
Você sabe o que precisa fazer. A tarefa está diante de você. O prazo se aproxima. O projeto é importante. Talvez seja algo que você mesma desejou durante muito tempo.
Ainda assim, você adia. Organiza outras coisas. Responde mensagens. Faz tarefas menores. Diz que começará quando estiver mais tranquila, mais preparada, mais inspirada ou mais segura.
Quando finalmente tenta iniciar, sente cansaço, ansiedade, confusão ou uma vontade repentina de fazer qualquer outra coisa. Depois, vem a culpa. Você se chama de desorganizada, indisciplinada ou incapaz. Promete que, no dia seguinte, fará diferente. Mas o ciclo se repete.
A procrastinação costuma ser tratada apenas como um problema de gestão do tempo. Entretanto, em algumas situações, ela pode estar ligada a conflitos emocionais mais profundos. A pergunta, então, deixa de ser apenas: “Por que não consigo fazer?” E passa a ser:
“Do que estou tentando me proteger quando não faço?”
Nem toda procrastinação é preguiça
Procrastinar significa adiar uma ação, mesmo sabendo que esse adiamento poderá trazer consequências. A pessoa deseja concluir algo, mas não consegue iniciar ou sustentar o movimento necessário. Esse comportamento pode estar relacionado a cansaço, excesso de tarefas, falta de organização, dificuldades de atenção, condições emocionais ou questões de saúde. Por isso, não existe uma única explicação para toda procrastinação. Entretanto, quando o adiamento se repete justamente diante de tarefas importantes, desejos pessoais ou oportunidades de crescimento, pode haver algo além da falta de disciplina.
A procrastinação pode funcionar como uma forma de proteção. Ao adiar, a pessoa evita temporariamente uma experiência que desperta angústia. Ela não evita apenas a tarefa. Pode estar evitando o risco de fracassar, a possibilidade de ser julgada, a responsabilidade de sustentar uma conquista ou o medo de descobrir que seu desejo não corresponde às expectativas que construiu.
O alívio imediato do adiamento
Quando uma tarefa provoca ansiedade, adiá-la pode produzir alívio. A pessoa pensa: “Não vou fazer agora.” Por alguns instantes, a tensão diminui. Ela sente que escapou daquilo que estava pressionando.
Esse alívio é temporário, porque a tarefa continua existindo. Mais tarde, a ansiedade retorna acompanhada de culpa, urgência e autocrítica. Forma-se um ciclo: a tarefa desperta angústia; a pessoa adia;
o adiamento produz alívio; a culpa aparece; a tarefa se torna ainda mais ameaçadora; a pessoa adia novamente. Quanto mais tempo passa, maior parece a dificuldade de começar.
A procrastinação deixa de ser apenas uma escolha ocasional e passa a organizar a relação da pessoa com aquilo que deseja realizar.
O que a tarefa representa?
Uma mesma tarefa pode ter significados emocionais diferentes para cada pessoa. Enviar um currículo pode representar uma oportunidade profissional. Mas também pode representar o risco de ser rejeitada. Iniciar um curso pode significar crescimento. Mas também pode despertar medo de não conseguir acompanhar.
Publicar um conteúdo pode ser uma forma de divulgar o próprio trabalho. Mas também significa se expor ao olhar e à avaliação dos outros. Finalizar um projeto pode ser uma conquista. Mas também pode trazer novas responsabilidades. Por isso, a intensidade da procrastinação nem sempre corresponde ao tamanho objetivo da tarefa.
Uma ação aparentemente simples pode carregar uma grande quantidade de sentidos. A pergunta não é apenas: “O que preciso fazer?” Mas também: “O que acontecerá comigo se eu realmente fizer?”
O medo de fracassar
Uma das razões mais conhecidas para a procrastinação é o medo de fracassar. Quando a pessoa associa seu valor ao resultado de suas ações, qualquer tentativa pode se transformar em uma prova sobre quem ela é. Se o projeto não der certo, ela não sentirá apenas que uma tarefa falhou. Pode sentir que ela própria fracassou. Adiar protege essa imagem.
Enquanto não tenta verdadeiramente, ainda pode acreditar que seria capaz. Pode dizer: “Eu teria conseguido se tivesse começado antes.” “Não ficou bom porque fiz com pouco tempo.” “Eu sei fazer, apenas não consegui me organizar.”
O adiamento cria uma justificativa. A falta de tempo passa a explicar o resultado, protegendo a pessoa do confronto com seus limites, suas dúvidas e a possibilidade real de não alcançar aquilo que esperava.
O perfeccionismo que paralisa
Muitas pessoas acreditam que o perfeccionismo as torna mais produtivas. Entretanto, o perfeccionismo também pode produzir paralisia. A pessoa imagina que precisa fazer algo excelente desde o início. Não pode errar. Não pode parecer inexperiente.
Não pode apresentar uma primeira versão incompleta. Precisa ter certeza antes de começar. Como essa segurança absoluta não existe, ela adia. Pensa que começará quando tiver mais conhecimento, mais tempo, mais recursos ou mais clareza. A tarefa cresce mentalmente até parecer impossível.
O perfeccionismo cria uma condição inalcançável: “Só posso fazer quando tiver certeza de que ficará bom.” Nesse caso, procrastinar protege a pessoa do contato com a imperfeição. Começar exigiria aceitar que o trabalho pode nascer incompleto, atravessar erros e ser aprimorado ao longo do processo.
A exigência de fazer tudo perfeitamente
Algumas mulheres cresceram acreditando que precisavam acertar para serem reconhecidas. Podem ter recebido mais atenção por suas conquistas do que por seus sentimentos. Talvez tenham aprendido que errar traz críticas, vergonha ou desapontamento. Assim, cada tarefa se transforma em uma avaliação. Não é apenas uma apresentação.
É uma prova de competência. Não é apenas uma postagem. É uma prova de valor. Não é apenas uma nova oportunidade. É uma prova de que ela merece estar naquele lugar.
Quando toda ação parece carregar um julgamento, começar torna-se ameaçador. A procrastinação mantém a avaliação suspensa. Enquanto a tarefa não está concluída, ainda não existe um resultado a ser julgado.
O medo de ser vista
Realizar algo pode aumentar a visibilidade. Um projeto pode ser apresentado. Uma ideia pode circular. Um trabalho pode receber atenção. Uma pessoa pode ser elogiada, criticada ou questionada.
Para quem teme o olhar do outro, a procrastinação pode funcionar como uma tentativa de permanecer protegida. A mulher pode desejar crescer profissionalmente e, ao mesmo tempo, sentir medo da exposição que esse crescimento trará. Pode querer publicar seus textos, mas imaginar críticas. Pode desejar divulgar seu trabalho, mas temer parecer pretensiosa. Pode querer ocupar um novo espaço, mas sentir que será descoberta como insuficiente.
O conflito não está necessariamente na falta de desejo. Ela quer avançar. Mas também quer evitar o risco de ser vista.
A vergonha de ocupar espaço
Algumas mulheres foram ensinadas a não chamar atenção. Aprenderam a ser discretas, agradáveis e modestas. Talvez tenham ouvido que mulheres que se destacam são arrogantes, exibidas ou ambiciosas demais. Por isso, crescer pode despertar vergonha. A mulher trabalha em silêncio.
Prepara-se muito. Possui conhecimento. Mas demora para apresentar aquilo que faz. Antes de publicar, revisa inúmeras vezes. Antes de oferecer um serviço, sente que ainda não está pronta.
Antes de aceitar uma oportunidade, procura razões para recusar. A procrastinação pode ajudá-la a permanecer pequena e pouco visível. Enquanto adia, não precisa enfrentar a culpa de ocupar espaço.
O medo de dar certo
Nem sempre a procrastinação está ligada apenas ao medo de fracassar. Ela também pode aparecer diante da possibilidade de sucesso. Dar certo pode trazer mudanças. A pessoa poderá receber mais responsabilidades. Talvez precise sustentar uma nova posição.
Pode ganhar mais dinheiro. Pode tornar-se mais independente. Pode afastar-se de determinados vínculos. Pode deixar de ocupar o lugar conhecido dentro da família. Uma conquista pode modificar relações.
A mulher que sempre foi dependente pode começar a decidir por si. A que sempre esteve disponível pode precisar reorganizar seu tempo. A que era pouco reconhecida pode começar a receber atenção. Essas mudanças podem despertar angústia. Fracassar mantém tudo como está.
Ter sucesso pode exigir uma nova forma de viver.
Quando realizar um desejo ameaça o pertencimento
Algumas pessoas sentem, inconscientemente, que crescer significa afastar-se de suas origens. Uma mulher pode desejar prosperar e, ao mesmo tempo, sentir culpa por conquistar aquilo que sua mãe não teve. Pode querer construir uma carreira diferente, mas temer ser vista como ingrata. Pode desejar uma vida mais livre, mas sentir que está abandonando a família. Nessas situações, a procrastinação pode funcionar como uma fidelidade.
Ela avança até certo ponto e depois recua. Inicia projetos, mas não conclui. Recebe oportunidades, mas não responde. Prepara-se, mas nunca se sente pronta. Assim, preserva o vínculo com a história familiar.
Ela pode manter o desejo vivo sem precisar enfrentar as consequências de realizá-lo.
A procrastinação como autoproteção
Dizer que a procrastinação pode ser uma proteção não significa que ela não cause prejuízos. Ela pode gerar perdas profissionais, financeiras, acadêmicas e emocionais. Entretanto, compreender sua função permite sair da lógica da condenação. O comportamento pode estar tentando proteger a pessoa de algo que, internamente, parece perigoso. A procrastinação pode protegê-la:
do julgamento; da rejeição; da frustração; da exposição; da responsabilidade;
da culpa; da possibilidade de errar; da necessidade de escolher; do confronto com o próprio desejo; das mudanças que uma conquista produziria.
Quando a pessoa se acusa apenas de preguiça, não consegue perceber contra o que está se defendendo.
O medo de escolher
Adiar também pode ser uma maneira de não escolher. Toda escolha implica uma renúncia. Ao escolher um caminho, outros deixam de ser seguidos. Ao iniciar um curso, a pessoa investe tempo que poderia ser usado em outra atividade. Ao assumir um projeto, compromete-se com uma direção.
Ao terminar uma relação, abre mão da esperança de que ela se transforme. Enquanto adia, mantém todas as possibilidades imaginariamente disponíveis. Nada foi perdido porque nada foi decidido. Essa suspensão pode parecer confortável. Mas também impede que a vida avance.
A procrastinação mantém a pessoa em uma espécie de espera, evitando a dor inevitável que acompanha toda decisão.
“E se eu escolher errado?”
Algumas pessoas acreditam que existe uma escolha perfeita. Elas querem ter certeza absoluta antes de agir. Pesquisam. Comparam. Revisam.
Pedem opiniões. Pensam em todas as consequências possíveis. Quanto mais pensam, mais difícil se torna decidir. O medo de errar transforma a escolha em uma ameaça. Entretanto, nenhuma decisão importante vem acompanhada de garantia total.
Escolher envolve lidar com incerteza. A pessoa que não tolera essa incerteza pode continuar adiando. O adiamento oferece a ilusão de que ainda poderá encontrar uma resposta sem riscos.
A tarefa que se transforma em cobrança
Uma atividade pode começar como desejo e, pouco a pouco, transformar-se em obrigação. A pessoa deseja escrever. Mas passa a pensar que precisa escrever perfeitamente. Deseja criar um projeto. Mas começa a comparar-se com todos que já fizeram algo semelhante.
Deseja estudar. Mas transforma cada dia de estudo em uma prova de disciplina. O prazer inicial desaparece. A tarefa passa a ser acompanhada por frases internas como: “Você já deveria ter feito.”
“Está atrasada.” “Os outros conseguem.” “Você nunca termina nada.” “Não pode errar de novo.” Quanto maior a cobrança, maior a resistência.
A procrastinação pode ser uma resposta à dureza com que a pessoa se trata. Ela não está apenas evitando a tarefa. Pode estar tentando escapar da violência de sua própria exigência.
A voz crítica internalizada
A autocrítica nem sempre surgiu espontaneamente. Ela pode carregar marcas de experiências anteriores. Talvez a pessoa tenha sido frequentemente comparada. Talvez seus erros fossem expostos. Talvez nunca sentisse que o que fazia era suficiente.
Com o tempo, as críticas externas podem tornar-se uma voz interna. Mesmo quando ninguém está cobrando, ela se cobra. Mesmo quando ninguém está julgando, imagina o julgamento. Mesmo quando tem liberdade para aprender, exige perfeição. Essa voz pode dizer:
“Você vai passar vergonha.” “Não é boa o bastante.” “Já deveria saber.” “Vai decepcionar todo mundo.” Diante dessa ameaça interna, adiar pode parecer mais seguro do que tentar.
A procrastinação e o cansaço emocional
Nem todo adiamento possui um significado inconsciente complexo. Às vezes, a pessoa está realmente exausta. Ela pode estar acumulando trabalho, cuidados familiares, preocupações financeiras e responsabilidades emocionais. Sua dificuldade de iniciar tarefas não acontece por falta de vontade, mas por falta de recursos internos e físicos. Mulheres acostumadas a sustentar tudo podem interpretar esgotamento como falha moral.
Chamam de procrastinação aquilo que também pode ser cansaço. Por isso, é importante perguntar: Você está evitando a tarefa ou não possui energia para realizá-la? Está com medo de começar ou está sobrecarregada? O corpo está pedindo organização ou descanso?
A resposta pode conter mais de um elemento. Uma pessoa pode estar cansada e também ansiosa. Pode estar sobrecarregada e com medo de falhar. Compreender isso exige escuta, não julgamento.
Quando pequenas tarefas parecem enormes
Em períodos de sofrimento emocional, até ações simples podem parecer difíceis. Responder uma mensagem. Agendar uma consulta. Organizar um documento. Abrir um e-mail.
A pessoa observa a tarefa e sente uma resistência desproporcional. Isso pode acontecer porque a tarefa se tornou associada a sentimentos maiores. Um e-mail pode representar uma cobrança. Uma ligação pode representar um conflito. Um documento pode representar uma decisão.
A atividade concreta é pequena, mas o significado emocional é amplo. Quando a pessoa não reconhece esse sentido, conclui que está sendo incapaz.
A fantasia de que amanhã será mais fácil
A procrastinação costuma ser sustentada por uma promessa: “Amanhã farei.” No futuro imaginado, a pessoa estará descansada, motivada e confiante. Não sentirá medo. Terá tempo suficiente.
Saberá exatamente o que fazer. Essa fantasia permite adiar sem abandonar completamente o desejo. Ela não diz que nunca fará. Diz que fará depois. O problema é que o dia seguinte pode trazer as mesmas emoções.
A pessoa espera uma segurança que talvez só possa ser construída durante a ação. Muitas vezes, não começamos porque estamos preparados. Vamos nos preparando enquanto começamos.
O prazer de planejar e a dificuldade de executar
Algumas pessoas sentem grande entusiasmo ao imaginar um projeto. Pesquisam materiais. Organizam agendas. Compram cursos. Criam listas.
Contam aos amigos. Durante o planejamento, tudo parece possível. A ideia ainda não encontrou limites. Ela permanece perfeita na imaginação. Quando chega o momento de executar, surgem dificuldades concretas.
O trabalho exige repetição, paciência, ajustes e contato com falhas. A realidade nunca corresponde inteiramente à fantasia. Por isso, algumas pessoas permanecem ligadas ao início. Começar novos projetos mantém viva a sensação de possibilidade. Concluir exige aceitar que o resultado será real, limitado e diferente do imaginado.
Por que alguns projetos perdem a graça perto do fim?
Uma pessoa pode envolver-se intensamente com uma atividade e perder o interesse quando está próxima de concluí-la. Isso pode acontecer porque o fim traz consequências. Um trabalho terminado poderá ser avaliado. Um curso concluído exigirá que ela utilize o que aprendeu. Um projeto pronto poderá ser oferecido ao público.
Enquanto está em construção, permanece protegido. Ainda pode ser modificado. Ainda não precisa enfrentar o olhar do outro. Finalizar também envolve separação. A pessoa precisa deixar o projeto sair do campo das possibilidades e existir no mundo.
Para algumas pessoas, essa passagem desperta angústia.
Quando procrastinar preserva uma fantasia
Enquanto algo não é realizado, pode permanecer perfeito na imaginação. A pessoa pode acreditar que escreveria um excelente livro, abriria um negócio bem-sucedido ou desenvolveria um grande projeto. A execução coloca essa fantasia à prova. O resultado poderá ser bom, mas provavelmente não será perfeito. Poderá receber elogios e críticas.
Terá limites. Adiar mantém intacta a imagem ideal. A pessoa não precisa enfrentar a distância entre aquilo que imaginou e aquilo que consegue produzir naquele momento. Mas também não permite que sua capacidade se desenvolva por meio da experiência.
A autossabotagem é sempre consciente?
A expressão “autossabotagem” é frequentemente usada para explicar comportamentos que prejudicam a própria pessoa. Entretanto, ninguém costuma acordar e decidir conscientemente destruir seus projetos. Aquilo que parece sabotagem pode ser uma tentativa de manter algum equilíbrio psíquico. A mulher deseja avançar, mas avançar desperta medo. Deseja ser reconhecida, mas teme a exposição.
Deseja independência, mas sente culpa. Deseja concluir, mas não sabe quem será depois. Duas forças entram em conflito. Uma parte deseja. Outra parte protege.
A procrastinação pode surgir como resultado desse conflito.
A repetição daquilo que você acredita sobre si
Uma pessoa que cresceu ouvindo que era desorganizada pode repetir comportamentos que confirmam essa imagem. A que foi considerada incapaz pode evitar tarefas que poderiam demonstrar sua competência. A que acredita que nunca termina nada pode abandonar projetos perto do fim. Não porque deseje fracassar, mas porque o fracasso é familiar. Concluir exigiria construir uma imagem diferente de si.
Mesmo uma mudança positiva pode produzir estranhamento. A pessoa pode pensar: “Isso não combina comigo.” “Não sou o tipo de pessoa que consegue.” A procrastinação mantém a identidade conhecida, ainda que essa identidade cause sofrimento.
A relação entre procrastinação e desejo
Nem toda tarefa adiada representa um desejo verdadeiro. Às vezes, a pessoa procrastina porque está tentando cumprir algo que não deseja. Pode estar seguindo uma profissão escolhida pela família. Mantendo um projeto que perdeu o sentido. Tentando corresponder a uma expectativa externa.
Nesses casos, a resistência pode revelar um conflito importante. A pergunta não é apenas: “Como faço para ter disciplina?” Também pode ser: “Eu realmente quero isso?”
“Esse projeto ainda faz sentido?” “De quem é esse desejo?” “Estou tentando provar algo para alguém?” Isso não significa que toda falta de vontade indique que devemos abandonar uma responsabilidade. Muitas tarefas necessárias não são prazerosas.
Entretanto, investigar o desejo ajuda a distinguir dificuldade, medo e ausência de sentido.
A disciplina não resolve tudo
Organizar horários, dividir tarefas e reduzir distrações pode ser muito útil. Mas estratégias práticas não resolvem sozinhas todos os casos de procrastinação. Uma pessoa pode criar agendas perfeitas e continuar sem agir. Pode conhecer várias técnicas de produtividade e permanecer paralisada. Isso acontece quando a dificuldade não está apenas na organização externa.
Existe um conflito interno que precisa ser compreendido. A disciplina pode ajudar a sustentar uma ação. Mas, quando a tarefa representa ameaça, a pessoa encontrará novas formas de evitá-la. Por isso, é importante unir organização e investigação emocional.
Começar pequeno pode ser uma forma de atravessar o medo
Quando uma tarefa parece representar uma avaliação sobre toda a identidade da pessoa, começar pequeno pode reduzir a ameaça. Não é necessário concluir tudo de uma vez. Pode ser possível abrir o documento. Escrever um parágrafo. Enviar uma mensagem.
Trabalhar durante alguns minutos. Fazer uma primeira versão imperfeita. O objetivo inicial não precisa ser produzir algo excelente. Pode ser apenas criar movimento. Entretanto, começar pequeno não é uma fórmula mágica.
Se o medo permanecer muito intenso, será importante compreender o que aquela ação mobiliza emocionalmente.
O que acontece quando você tenta começar?
Observar o momento exato da procrastinação pode revelar informações importantes. O que você pensa? O que sente no corpo? Que imagens aparecem? Você imagina críticas?
Sente sono? Fica confusa? Começa a fazer outra coisa? Lembra-se de tarefas menos importantes? O que diz a si mesma?
Essas reações ajudam a compreender a função do adiamento. Talvez surja o medo de falhar. Talvez a tarefa pareça grande demais. Talvez você não saiba por onde começar. Talvez se sinta sozinha diante de algo difícil.
Talvez esteja tentando evitar uma decisão. A procrastinação deixa pistas.
Como a psicanálise pode ajudar?
A psicanálise não trata a procrastinação apenas como um problema de produtividade. Ela busca compreender o sentido singular que o adiamento possui na vida de cada pessoa. Na análise, a mulher pode investigar: por que determinadas tarefas despertam tanta angústia; o que teme que aconteça se for bem-sucedida;
como reage diante da possibilidade de errar; que críticas antigas continuam presentes em sua fala interna; por que a exposição parece tão ameaçadora; quais expectativas familiares tenta cumprir; o que acredita que perderá se avançar;
se o projeto corresponde ao seu desejo ou ao desejo de outra pessoa; por que concluir pode ser mais difícil do que começar. A análise não oferece uma explicação pronta. Duas pessoas podem procrastinar a mesma tarefa por razões completamente diferentes. Uma teme a rejeição.
Outra teme o sucesso. Outra está exausta. Outra não deseja realmente aquilo. Outra não consegue suportar a imperfeição. Outra sente que crescer a afastará da família.
O trabalho analítico permite que cada pessoa encontre o sentido de sua própria repetição.
Nomear a proteção modifica a relação com o adiamento
Quando a pessoa compreende que está tentando proteger-se, pode deixar de tratar a si mesma apenas com agressividade. Em vez de dizer: “Sou preguiçosa.” Pode perguntar: “O que parece perigoso aqui?”
Em vez de concluir: “Não tenho disciplina.” Pode investigar: “Que medo aparece quando penso em terminar?” Isso não significa aceitar passivamente o adiamento.
Significa abordar o problema de um lugar mais produtivo. A autocrítica intensa pode aumentar a paralisia. A compreensão permite construir outras formas de enfrentar aquilo que assusta.
Você não precisa esperar o medo desaparecer
Muitas pessoas acreditam que agirão quando se sentirem confiantes. Entretanto, a confiança frequentemente se constrói durante a experiência. É possível começar com medo. Enviar mesmo sentindo insegurança. Apresentar uma versão possível.
Aceitar que o resultado não será perfeito. A ausência de medo não precisa ser uma condição para a ação. Mas também não é necessário ignorar completamente aquilo que você sente. O medo pode ser escutado sem assumir o controle de todas as decisões.
Da proteção à escolha
A procrastinação pode ter sido uma forma de evitar experiências que pareciam perigosas. Talvez tenha protegido você do julgamento, da vergonha ou da frustração. Talvez tenha ajudado a manter vínculos e identidades conhecidas. Reconhecer essa função não significa que ela ainda seja necessária da mesma maneira. Uma proteção pode tornar-se uma prisão.
Aquilo que evita a dor também pode impedir o crescimento. O processo de mudança não exige atacar a parte que adia. Exige compreender o que ela tenta impedir. Quando o medo ganha palavras, a pessoa pode começar a construir outras formas de proteção. Pode preparar-se sem esperar perfeição.
Pode pedir ajuda. Pode dividir uma tarefa. Pode suportar uma crítica sem transformar isso em prova de fracasso. Pode avançar sem abandonar suas origens. Pode reconhecer que errar faz parte do processo.
Talvez você não esteja sem vontade
Talvez exista vontade. Mas também exista medo. Talvez deseje realizar. Mas tema as consequências. Talvez queira ser vista.
Mas tenha aprendido que se destacar é perigoso. Talvez queira concluir. Mas não saiba quem será quando o projeto estiver pronto. Talvez deseje crescer. Mas sinta culpa por ultrapassar pessoas importantes.
A procrastinação pode ser o lugar no qual esses conflitos se encontram. Você não precisa reduzir sua experiência a preguiça ou falta de disciplina. Mas também não precisa permanecer indefinidamente protegida pelo adiamento. Compreender o que acontece dentro desse padrão pode permitir que a ação deixe de ser uma ameaça. Talvez a pergunta mais importante não seja:
“Como faço para parar de procrastinar?” Talvez seja: “O que fazer isso colocaria em movimento dentro da minha vida?”
Um convite à reflexão
O que você costuma adiar repetidamente? Qual sentimento aparece quando tenta começar? Você teme mais fracassar ou ser bem-sucedida? O que mudaria em sua vida se esse projeto fosse concluído? Você está esperando sentir-se perfeitamente preparada?
De quem é a crítica que aparece em sua mente? Existe culpa em crescer, destacar-se ou ocupar espaço? Aquilo que você adia corresponde ao seu desejo ou à expectativa de outra pessoa? Essas perguntas podem ajudar a perceber se a procrastinação está ligada apenas à organização ou se também funciona como uma forma de proteção. Na entrevista inicial, podemos conversar sobre o que você está vivendo, compreender os motivos que a levaram a buscar acompanhamento e perceber se existe interesse de ambas as partes em dar continuidade ao processo analítico.
Referências teóricas
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914).
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926).
FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923).
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 5: As formações do inconsciente.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
Luciana Bettencourt